Opinião: Uma carta para 2016

Por Jadeanny Arruda, de Natal/RN

Lá vai você dois mil e dezesseis, fazendo a curva para ir embora. Como você nenhum ano foi e nem será. Definir você pior ou melhor tornou-se irrelevante, tornou-se apenas uma perda de tempo e por falar em tempo o seu tempo escorreu pelos dedos, como a chama de uma vela que agora já no fim, tende irremediavelmente a se apagar. Tem gente que vira o nariz para você, tem quem deseje que você se arraste e tem quem apenas agradeça porque você veio e vai. Talvez tenhamos esperado muito de você, talvez tenhamos feito pouco caso para o que você nos pediu, e tenhamos acreditado que bastava fechar os olhos ás 00:00 do finzinho de 2015 para que você pudesse ser incrível esquecendo das nossas responsabilidades. Mas a gente tem essa mania feia mesmo de querer cobrar do outro o que ás vezes nem temos.

Você não foi bonzinho, não foi malzinho, você foi cru. Escancarou nossas mazelas, deixou amostra todo nosso egoísmo engomadinho, nossa coragem muda, nosso amor doente. A corda da forca fomos nós, você só foi o só o banquinho que subimos. Não adianta me declarar para você agora que já está para o fim e dizer que foi fácil, – até porque a intensidade não dependeu muito de você, mas de mim. Na maioria dos dias você exigiu uma imensa força de vontade de abrir os olhos, levantar e tocar a vida, você silenciosamente cobrou de mim que eu agradecesse por mais um dia, até que eu me acostumei apenas a agradecer qualquer coisa que fosse me dada, qualquer coisa que pudesse servir para crescimento, ruim ou boa. Foi osso duro de roer, mas roemos e parece que agora iremos engolir e se transformará um ano no calendário.

Quando criança eu fazia natação, tinha que acordar muito cedo, – eu sempre odiei acordar cedo, principalmente no frio, mas eu gostava muito das aulas, dos meus amigos, do professor. E só conseguia levantar da cama depois de pensar o quanto aquelas aulas eram maravilhosas e como eu não poderia deixar de ir apenas por preguiça ou cansaço. Você foi assim: eu não queria levantar, mas eu lembrava que em alguma esquina eu poderia encontrar algo maravilhoso, ou me maravilhar com algo comum. Sabe, na virada do ano, quando você somente batia a porta eu diferentemente dos outros anos só mentalizei saúde e pedi um pouco mais de torta de chocolate no meu prato. A gente coloca sobre você muita responsabilidade, né? Acho que isso enche o saco, e ai é todo mundo no final do ano te culpando, te escorraçando, te colocando de vilão. Quando quem deveria segurar as rédeas da nossa vida é só a gente mesmo e seguir levantando nos 365 dias disposto a descobrir alguma coisa bonita para se encantar.

Você sabe, eu também sei que no final do próximo ano estarão escorraçando o 2017 porque colocaram sobre ele o peso de toda uma vida, que pena. Desculpa aí 2016, você deu muita oportunidade, a gente é que é um pouco egoísta e sempre procura culpado. Agora para você não sair tão sujo vou sugerir que todo mundo que conheço me conte uma felicidade que viveu esse ano, assim a gente se ilumina e agradece junto.

Obrigada, não sou do time dos que estão correndo com você, nem dos que querem que seus dias transformem-se em séculos, eu sou só aquela garota que aprendeu com você a levantar e procurar encantamento em alguma coisa, se agarrando em cada gotinha menor que fosse de delicadeza, bondade e amor que seus dias poderiam dar. Sou apenas a garota que pediu uma fatia a mais de torta e que achou doçura em você, e que você com toda sua cara fechada conseguiu que ela acreditasse em si mesma.

*Jadeanny Arruda é jornalista, gosta de escrever, de Tarô e de falar das coisas da vida;

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